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Entre 1940 e 2016 a expectativa de vida do brasileiro cresceu substancialmente, sendo cerca de 75 anos atualmente. Em paralelo, a diminuição da fertilidade (menor número de filhos por família) projeta inversão demográfica importante na população brasileira. Em 2010, existiam 39 idosos para cada grupo de 100 jovens, em 2040, estima-se 153 idosos para cada 100 jovens 1. O Censo brasileiro de 2010 identificou 20,5 milhões de idosos no Brasil. Em 2050 esse número deve atingir 64 milhões, posicionando o Brasil como a quinta nação com maior número de idosos 2.

O envelhecimento da população impõe outras necessidades médicas, pois as doenças associadas ao envelhecimento, como as doenças neurodegenerativas e as doenças musculo-esqueléticas tornam-se substancialmente mais comuns. Em estudo conduzido em Goiânia, a prevalência de doenças musculoesqueléticas em pessoas acima de 60 anos foi de 39,1%, sendo as osteoartroses, artrites e a osteoporose as causas mais frequentes 3. Em comum, essas doenças causam diminuição da mobilidade e dor. Outras causas comuns de dor no idoso incluem as neuropatias (por exemplo diabética), dor por doenças isquêmicas e por micro-fraturas ou compressões (por exemplo compressões vertebrais). No ano de 2008 publicamos um estudo na Academia Americana de Gerontologia, onde examinamos 840 idosos com mais de 70 anos de idade vivendo no Bronx, em New York. Dor crônica foi referida por 52% da amostra (40% em homens e 59% em mulheres). Os idosos com dor crônica tinham significativamente maior chance de ter depressão (150% maior chance) ou ansiedade (130%). A prevalência da dor crônica era maior naqueles com sobrepeso e obesidade 4.

É importante salientar que outras formas de dores comuns nos jovens, não necessariamente melhoram com o envelhecer. Em estudos que realizamos na Itália, entre 1237 idosos com declínio cognitivo (por exemplo por doença de Alzheimer), 24.4% referiam dores de cabeça, e 4% tinham dores de cabeça todos os dias 5.

A dor crônica no idoso tem consequências importantes. Em primeiro lugar, dor crônica associa-se a depressão e ao isolamento, importantes determinantes a pior qualidade de vida no idoso. Em segundo lugar, a dor causa diversos impedimentos funcionais, os mais importantes sendo:

  • Predisposição a quedas. A dor crônica, independente da causa, aumenta o risco de quedas. Isso é magnificado pelo fato que a doença de base, que causa dor, muitas vezes também aumenta a chance de quedas. Indivíduos com artrose de quadril e dor crônica tem mais chance de queda que os que tem artrose de quadril sem dor, que por sua vez tem maior chance de quedas que os que não tem artrose ou dor 6. Ainda, mais de uma causa de dor crônica (exemplo, artrose e fibromialgia), tem efeito aditivo em aumentar o risco de quedas.
  • Diminuição na capacidade de locomoção. Por razões óbvias, a dor crônica impede a locomoção adequada. Aqui também, isso é independente de causa primária. Em estudo conduzido em parceria com o departamento de Fisioterapia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, avaliamos a chance de quedas (54%) e o medo de cair (69%) em pessoas com enxaqueca severa versus sem enxaqueca (2% e 2%) 7.  Mostramos ainda que mulheres com enxaqueca (forma de dor que não é musculoesquelética, portanto não impede a locomoção por distúrbios mecânicos nos músculos ou articulações) tinham menor velocidade ao andar e passos menores, e tinham pior performance no teste “sit to stand”, um teste em que pedimos para os participantes levantarem-se da cadeira sem ajuda 8.

O tratamento da dor crônica no idoso, portanto, requer mais do que a administração de medicamentos apenas. Em primeiro lugar, há maior dificuldade no tratamento medicamentoso nessa faixa etária. Idosos são particularmente sensíveis aos efeitos colaterais de medicamentos para a dor, que incluem sonolência, retenção urinária, sedação, e efeitos na cognição. Em segundo lugar, idosos geralmente usam vários outros medicamentos, e a interação entre medicamentos passa a ser um problema. E ainda, o tratamento da dor tem que incluir medidas que minimizem a propensão a queda, e a dificuldade de locomoção, que é diretamente causada pela dor, mas também indiretamente (medo de cair).

 

Nesse sentido, oferecemos diversas recomendações não medicamentosas voltadas para o indivíduo idoso com dor crônica. Além do tratamento para a dor é importante, de acordo com a Mayo Clinic nos Estados Unidos (https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/healthy-aging/in-depth/fall-prevention/art-20047358):

 

Continue se movendo. A atividade física é muito importante para a prevenção das quedas e manutenção da saúde. Programas cuidadosos, e o uso de equipamentos para prevenção das quedas são importantes.

Use calçados adequados. Calçados com base mais larga, sem saltos, e desenhados para evitar lesões (especialmente em pessoas com doenças vasculares ou neuropatias) são muito úteis.

Mude o seu ambiente. Olhe ao redor. Remova tapetes e mesinhas desnecessárias, deixe o ambiente fácil para a locomoção.

Ilumine o seu ambiente. Valha-se da visão para compensar a perda do equilíbrio.

Use acessórios preventivos. Corrimões nos dois lados da escada, tapetes que não deslizam, assento de toalete elevado, corrimões na área de banho, cadeiras para banho.

 

E procure o médico para tratar de sua dor. O aumento da longevidade, para ser plenamente desfrutado, requer não apenas o tratamento das doenças, mas a contínua busca pela saúde e independência.

 

Dr Marcelo Bigal

PhD em Neurociências pela USP de Ribeirão Preto

CEO na Ventus Therapeutics

 

Idoso, dor cronica,
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Referências

  1. Miranda GMD, Mendes AdCG, Silva ALAd. Population aging in Brazil: current and future social challenges and consequences. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. 2016;19:507-519.
  2. Miranda VS, Decarvalho VB, Machado LA, Dias JM. Prevalence of chronic musculoskeletal disorders in elderly Brazilians: a systematic review of the literature. BMC Musculoskelet Disord. 2012;13:82.
  3. Melo ACF, Nakatani AYK, Pereira LV, Menezes RLd, Pagotto V. Prevalência de doenças musculoesqueléticas autorreferidas segundo variáveis demográficas e de saúde: estudo transversal de idosos de Goiânia/GO. Cadernos Saúde Coletiva. 2017;25:138-143.
  4. McCarthy LH, Bigal ME, Katz M, Derby C, Lipton RB. Chronic pain and obesity in elderly people: results from the Einstein aging study. J Am Geriatr Soc. 2009;57(1):115-119.
  5. Feleppa M, Fucci S, Bigal ME. Primary Headaches in an Elderly Population Seeking Medical Care for Cognitive Decline. Headache. 2017;57(2):209-216.
  6. Leveille SG, Jones RN, Kiely DK, Hausdorff JM, Shmerling RH, Guralnik JM, Kiel DP, Lipsitz LA, Bean JF. Chronic musculoskeletal pain and the occurrence of falls in an older population. JAMA. 2009;302(20):2214-2221.
  7. Carvalho GF, Almeida CS, Florencio LL, Pinheiro CF, Dach F, Bigal ME, Bevilaqua-Grossi D. Do patients with migraine experience an increased prevalence of falls and fear of falling? A cross-sectional study. Physiotherapy. 2018;104(4):424-429.
  8. Carvalho GF, Bonato P, Florencio LL, Pinheiro CF, Dach F, Bigal ME, Bevilaqua-Grossi D. Balance Impairments in Different Subgroups of Patients With Migraine. Headache. 2017;57(3):363-374.

 

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